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Direita x Esquerda: a polarização dos partidos divide famílias

Liberdade de escolha de ideologia política na teoria funciona, mas na prática dentro das famílias não é uma realidade no país.

Por: Marcella Stelle e Maria Vitória Guimarães

Pode ser comparado ao FlaFlu ou Atletiba para os amantes de futebol. Quem gosta de novela é como a rivalidade entre Rute e Raquel em “Mulheres de Areia”. Há sempre uma disputa quando o assunto é eleição, mas esse ano o Brasil viverá algo inédito: uma possibilidade enorme de candidatos à Presidente do país com a votação polarizada em dois possíveis candidatos.

Mais do que escolhas e/ou ideologias partidárias, o cenário político nacional vive hoje um campo de guerra. Não há possibilidade de meio termo, apenas ser de direita ou esquerda. Assim como no futebol, sua ideologia faz você perder amigos, mesmo que seja com uma piada.

Ana Beatriz Peixoto, 46, é psicóloga e artesã. Nascida em Uberlândia, aos doze anos conheceu o universo político. Junto com irmão e amigos, foram cabo eleitoral de Olga Helena da Costa, candidata a vereadora e do candidato ao governo pelo PMDB Tancredo Neves nas eleições de 1982. Olga era professora e amiga da família de Ana, mulher e negra militava pela causa das minorias. Ana, junto com alunos colavam cartazes, panfletavam nas ruas e no dia da eleição fizeram boca de urna. “Saímos no jornal da cidade. Olguinha foi a vereadora mais votada”, conta a artesã que diz ter nascido ali sua paixão por esse mundo.

Na faculdade de psicologia já em São Paulo descobriu que haviam lados na política, e que ela se encaixava na esquerda. Com 18 começou a namorar seu marido “ele é super ‘coxinha’, todos da família dele eram ‘malufistas’ quando os conheci, mas mesmo assim não deixei de me posicionar. Em 1998, por exemplo, com a Erundina na prefeitura de São Paulo”.

Afinal, o que é direita e esquerda? No Brasil, os termos ganharam força na Ditadura Militar, onde quem apoiou o golpe dos militares era considerado da direita, e quem defendia o regime socialista, de esquerda. Hoje essas escolhas vão além. Avanços na legislação em direitos civis e temas como aborto, casamento gay e legalização das drogas são vistas como bandeiras da esquerda, a direita defende a família tradicional.

Olívia de Brito, 86 anos diz que educou os filhos com completa liberdade nas escolhas políticas. “Nunca me meti no voto dele, deixei que os meus cinco filhos sempre votassem em quem quisessem a vida inteira”, conta a dona de casa que teve o marido, já falecido, vítima de perseguição nos anos 60. Hoje os filhos têm opiniões diversas quanto as escolhas presidenciais. “Tem filho que votará no Bolsonaro e tem filho que votará no Lula”, conta Olívia que mesmo com a opção do voto facultativo por causa da idade, faz questão de exercer sua cidadania “desde que tirei meu título, voto a cada dois anos. Já deixei de ver familiares porque não queria viagem durante as eleições”.

Essa liberdade sobre escolhas políticas não acontece em todas as famílias. Na casa de Maria Nazareth, o posicionamento é a direita e não se aceita outra ideologia. “Somos a favor das mudanças e entendemos as questões das minorias, mas não vejo como certo liberar o aborto ou uso de drogas”, conta a aposentada.

Apesar de terem ideias diferentes, na casa de Ana Beatriz o assunto política entre o casal é proibido “apesar do meu marido reconhecer os benefícios do governo PT no Brasil, se falo alguma coisa pode saber que haverá briga”, comenta a psicóloga que tem dois filhos adolescentes. “O mais velho votará pela primeira vez esse ano, ele sabe que pode votar em quem quiser, menos no Bolsonaro”, brinca ela “o mais novo tem treze anos e não vota, mas é bem parecido comigo, então não me preocupo, ele tem valores humanos. O mais velho já é mais capitalista como o pai, isso me ‘preocupa’”.

As filhas de Maria Nazareth seguem as ideologias da mãe, mas não sabem o que é direita ou esquerda. Aliás, esse é um dos grandes problemas para essas eleições: a falta de conhecimento político. “Para mim esquerda é

Maria Nazareth e a filha Cláudia, na passeada “Vem Pra Rua”. Acervo Pessoal 13/03/16

PT”, conta Claudia Cortes, 43. Apesar de ser a favor do aborto, casamento gay e outras lutas das minorias características das lutas da chamada esquerda, Claudia continua votando nos mesmos partidos “PT quer tornar o Brasil comunista, olha o exemplo de Cuba”.

Diferente de uma partida de futebol ou de uma novela que tem tempo de duração curto e depois vida que segue, as escolhas e ideologias políticas envolvem a mudança da vida em sociedade e por um período de, no mínimo quatro anos. Vale a reflexão sobre o que é democracia, inclusive dentro de casa.